Quando o caldo entorna, ou sobre pequenos delinquentes...


Preciso lavar a alma, afinal é pra isso que criei o blog...

Hoje eu vivi uma das cenas mais bizarras de toda minha vida. Na verdade, tenho presenciado alguns episódios bem estranhos neste último mês, desde que eu resolvi entrar pro clube das au pairs.

Antes de falar sobre isso, quero relembrar toda a preparação psicológica que eu fiz e que culminou neste meu ato último de viver essa experiência do lado de dentro.

Eu nunca fui muito aficcionada por crianças. Pra ser bem sincera, não tenho o mínimo de paciência para criança mimada ou mal-educada. Quando estava me preparando pra vir pra Dublin e quando me perguntavam sobre como eu iria me virar, respondia que seria au pair, se necessário. E, inevitavelmente, todos riam da minha cara, deliberadamente. A pergunta que mais ouvi: "Au pair, você?" Pois é, acho que meus amigos não me vêem como uma pessoa que gosta tanto assim de crianças a ponto de querer passar a maior parte do dia na companhia desses "adoráveis" pentelhos.

Fato é que o dinheiro tava acabando. E eu virei au pair. Vendi minha alma ao diabo. Me perdoem o trocadilho, mas é justificável, quase perdoável.

Bem, a coisa já começou meio estranha. Primeiro dia de trabalho e eu ainda não tinha conhecido a família, nem a casa, nem as crianças. Como assim? Como uma mãe responsável vai contratar alguém pra cuidar dos seus filhos sem se certificar se essa pessoa é idônea? Confiança demais? Responsabilidade de menos?

A primeira semana foi meio assustadora. De qualquer forma, já estava meio preparada psicologicamente de tantas histórias esquisitas que tinha ouvido falar de amigas e amigas de amigas que se aventuraram assim como eu.

As crianças aqui são educadas de uma forma completamente diferente de nós brasileiros. Com quatro ou cinco anos a criança já tem total poder de decisão: o que vai comer, o que vai vestir, o que vai assistir, se vai ou não fazer o que os pais pedem (e na maioria das vezes não o fazem). Quando me contavam, achava que era exagero. Ainda assim topei o trabalho com a cabeça aberta. Precisei ver com meus próprios olhos e estou ainda mais assustada.

Vamos aos fatos, então. Trabalho numa casa pequena, cuido de três crianças, um menino com 2 anos e meio e duas meninas, de 4 e 5 anos. A mais velha é extremamente nervosa, violenta e até dissimulada. A mais nova é muito mimada, literalmente ganha tudo o que quer no grito e muito independente: faz o que quer, quando e como quer. O menino também é mimado, mas até por ser ainda muito dependente de cuidados alheios, fica um pouco mais fácil de se lidar.

Semana passada uma delas, a mais velha, gritou comigo, foi mal educada, grossa mesmo. Falei com voz firme que não aceitaria esse tipo de tratamento, que ela teria de me respeitar. Essa semana ela quase gritou comigo de novo, mas se controlou a tempo. Esses dias atrás ela estava "brincando" de brigar com a irmã quando inesperadamente correu para a cozinha e voltou com uma faca na mão. Como manda a cartilha, pedi pra ela me devolver, como não o fez, tirei da mão dela. Ela por duas vezes voltou a cozinha e pegou uma faca e um garfo, respectivamente. Mais horrorizada que o comportamento dela, fiquei de cara com a reação do pai, quer dizer, com a falta de reação. Quando contei o caso a ele, simplesmente resmungou alguma coisa inaudível e ignorou minha presença. Desde então venho pensando sobre o futuro dessas crianças...

Bem, se alguem for ler esse relato e quiser entender melhor a questão, o pai fica o dia todo em casa e faz todas as vontades das crianças, mesmo as proibidas (segundo instruções da mãe que trabalha fora o dia todo e mal tem contato com as crianças), como chupar chupeta ou assistir TV muito tempo.

Voltando ao relato, hoje aconteceu o inevitável. Acho que eu estava prevendo que cedo ou tarde isso iria acontecer, até porque já a tinha visto fazer com o pai e porque então não faria comigo. Meu dia chegou. Apanhei, levei vários chutes de uma criança de 4 anos. E não pude fazer absolutamente nada. Justiça seja feita, ela não bateu com força, mas numa fúria assustadora. Se não fosse tão trágico, seria engraçado. Na verdade, até agora quando eu me lembro da cena, tenho um misto de ódio (sim, tive vontade de pular no pescoço da pequena delinquente e ensiná-la a tapa como se respeitar alguém). Tudo bem, parece contraditório, mas nessa discussão de como se deve educar uma criança, os pais, com medo de passar dos limites simplesmente não fazem nada. Assistem impotentes, assim como eu.

Continuo pensando sobre o futuro dessas crianças. Se aos 4 e 5 elas batem nos pais e na babá, porque não os mataria aos 15 ou 18, caso contrariadas? Que diferença faz, afinal de contas, brincar com facas já é normal mesmo...

Fiquei com a péssima impressão de que esse é um país de ninguém, indo a bancarrota, de pais bêbados e crianças delinquentes... Me desculpem todos os irishs que me receberam super bem (e que até concordaram comigo quando fiz essas mesmas reflexões).

Toda experiência é válida. Talvez essa sirva pra alguma coisa se algum dia eu tiver de educar meus próprios filhos... Enfim...

Aliás, pedi as contas. E, contrariando todo esse glamour de que babá é como uma segunda mãe, não consegui sequer desenvolver algum tipo de afetividade. Só tenho dó, só isso...

6 comentários:

Sophia disse...

Cara, eu não me aventuro numa dessas.

Boa sorte ate quando puder.

Beijos

dig disse...

Mana. única coisa que passou na minha cabeça agora foi poder estar aí com VC e te dar um abraço. que situaçao hein..?! Nuss
Beijao

Priscila Gemballa disse...

Nossa que absurdo, fez bem em sair dessa fria! Boa sorte bjs

Edi Oliveira disse...

Pri, decidi voltar pro Brasil em maio mesmo. Até lá vou ficar de boa, talvez faça algum outro voluntariado que me agrega mais do que cuidar de criança mimada hehehe...

E vc, como tá a vida de au pair?

bjs

Edi Oliveira disse...

Mi e Digão,

No final das contas, eu to sobrevivendo. Mas que to morrendo de saudades de vcs, isso eu to :)

bjkas

Manu Martins disse...

Confesso que me deu um puta frio na barriga agora, soh de saber que quarta eu to lá, trabalhando com vc.
Anyway, tem coisas que precisamos fazer pra realizar outros sonhos, né?! haha

Beijos.

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