Um pouco de desapego (e mesmo de preguiça)
não faz mal a ninguém.
Utopias
Nos ensinam desde sempre que ser utópico é ser um sonhador, um alienado, um perdedor. Nos ensinam a ter pés no chão e a trabalhar duramente em troca de um salário [de fome] no final do mês, estudar bastante, batalhar por um bom emprego e uma carreira promissora. Nos ensinam a não falharmos com nossos deveres de cidadãos na hora da eleição refletindo no nosso voto (sic). Nos ensinam a sermos meros replicantes do sistema, repetirmos idéias prontas, reproduzirmos a mesma ladainha midiática.
Utopias não são mais sonhos possíveis, são devaneios, perda de tempo, coisa de comunista, coisa do passado, cheiro de mofo e naftalina.
Essa semana eu li sobre a possível candidatura de Marina Silva à presidência. Resolvi conhecer um pouco mais sobre sua biografia e numa entrevista leio ela falando sobre suas utopias possíveis de um mundo mais "verde", mais humano.
Voltei a pensar sobre minhas utopias...
Gravidez

Muita calma nessa hora. A notícia nem é tão bombástica assim. Estou grávida de idéias. Meus pensamentos estão convulsivos, minha memória inchada, pura masturbação mental.
Penso que não nasci pra minha época. Talvez esteja ficando velha, mas não gosto do cheiro de naftalina. Dizem que uma hora a gente se acostuma. Tenho medo. Não quero aceitação, conformismo, mas não quero dedos em riste.
E o que isso tem haver com gravidez? Nada e tudo.
Qual a cara do bebê? Tou ouvindo bastante música clássica. Desde Vivaldi (e olha que nem sou tão fã assim), até Bach e seus maravilhosos concertos para Oboé ou Clarinete (minha preferência "forçada" desde a adolescência, mas é outra história). Ouvi Vila Lobos também. Jazz, blues, "world music". Tava precisando ouvir música nova, gostosa, criativa, simples. Yeah! Bingo! E o som é da terrinha abençoada por Deus mesmo, feito por "Algum Zé". (Quantas aspas e parêntesis num único parágrafo.)
O que eu quero? Que o bebê venha ao mundo logo. To cansada, inchada, com gosto de ferrugem e sem tesão algum. Será que isso nunca vai acabar?
Escrevo não para que os outros leiam. Escrevo pra mim, mesmo. Pra desabafar e ver se o fluxo sanguíneo no cérebro melhora um pouco. Porque to cansada. Quero é curtir preguiça, quero é não pensar em nada. Não consigo. E os pensamentos falam mais alto que eu. Não consigo nem pensar, de tanto que penso.
Só pode ser gravidez. Dizem que a barriga aumenta de tamanho, que algo se move dentro de vc, que vc tem vontades, mas nem sabe de quê. Então, acho que estou grávida. Só pode ser...
E sobre a música clássica, o que eu queria dizer mesmo é que o bebê será feliz e tranquilo (era o que eu queria dizer naquele parágrafo, mas acho que me perdi). É o que dizem...
Devo estar grávida e louca, ou só cansada mesmo... Todas as grávidas se cansam, não é?
Livros e sexo
Rapidinhas
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Ando lendo Rubem Alves e não dá pra não pensar em voltar a escrever. A cabeça vira um turbilhão de pensamentos e idéias descoordenadas e desconexas. Preciso escrever para organizar as idéias, colocá-las no lugar. Ou então deixá-las lá no caos, esperando algum "Big Bang".
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Ainda sobre Rubem Alves: ele convidou-me a dar um nome a Deus: Inspiração.
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Esses dias assisti "O Homem que Plantava Árvores". Deu saudades da infância, da época que era gostoso e divertido ouvir os contadores de histórias. Será que deixou de sê-lo? Não. Mas não tenho mais tempo para histórias... =/
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Acho que ninguém mais lê meu blog. Então vou esconder aqui os links pra essa animação belíssima. Uma verdadeira poesia.
http://www.4shared.com/file/116496680/135a08f6/Lhommequiplantaitdesarbres_DVDRipXviD_EngFrEspPtBrMKOffpart1.htmlhttp://www.4shared.com/file/116496681/645d3860/Lhommequiplantaitdesarbres_DVDRipXviD_EngFrEspPtBrMKOffpart2.htmlhttp://www.4shared.com/file/116496682/fd5469da/Lhommequiplantaitdesarbres_DVDRipXviD_EngFrEspPtBrMKOffpart3.htmlhttp://www.4shared.com/file/116496683/8a53594c/Lhommequiplantaitdesarbres_DVDRipXviD_EngFrEspPtBrMKOffpart4.htmlhttp://www.4shared.com/file/116496684/1437ccef/Lhommequiplantaitdesarbres_DVDRipXviD_EngFrEspPtBrMKOffpart5.html
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Lembrei da história de Jonathan, a Gaivota... Tá aqui no meu blog. Quando tiver um tempinho, volto aqui de novo, nem que seja só pra lembrar que ainda posso voar.
O Rei dos Pecadores: um conto brasileiro (Parte VII)

VII - Da Realidade Quando Bate à Porta
O sol ainda não nasceu e lá vai Jesus, mochila nas costas com o arroz e feijão diário, alguns trocados no bolso, olhar cansado e determinado. No ônibus lotado, lá vai Jesus, calado, perdido em pensamentos, lembrando de sua doce Madalena, fogosa Madalena, morena Madalena. Subindo ou descendo a ladeira, lá vai Jesus...
Soa o apito na fábrica e lá vai Jesus de volta ao lar-doce-lar. É noite de novo; mochila vazia, marmita vazia, bolsos vazios e lá vai Jesus, mãos ásperas e cinzas, olhar fugidio, tez repuxada, em sua solidão indiferente. Hoje, amanhã, depois, lá vai Jesus...
Sente o ar abafado do morro e lá vai Jesus refrescar-se com um banho gelado enquanto mãe Maria prepara-lhe mingau e sustança. Cai na cama exausto e em pensamentos, lá vai Jesus beijar Madalena, Madalena flor, Madalena cor, Madalena mulher. Dorme pra acordar daqui a pouco, lá vai Jesus...
(continua)
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Imagem: Greve - Lasar Segall
O Rei dos Pecadores: um conto brasileiro (Parte VI)

VI - Do Amor
A noite chega calma, tranquila, quase poética. A lua redonda e alaranjada parece querer tocar a cruz hasteada na Capela erigida no alto do morro.
Maria franze a testa parecendo adivinhar o destino que dali a pouco encontrará o seu menino Jesus. Não importa se já é homem feito e barbado. É seu menino, sim; o é agora e será sempre.
O menino-homem banha-se, veste-se, penteia-se, perfuma-se. A sorte lhe sorri e, manhosa, o aguarda na próxima esquina. Ele toma um gole de coragem num copo de aguardente e vai porta afora, rua adentro. Maria acena da janela. Lá se vai seu menino; voltará homem, decerto.
Os rapazes fazem algazarra e Jesus sorri tímido. Caminha quieto, pensativo, a passos firmes e seguros, sempre. A luz vermelha dá as boas-vindas aos amigos que se entreolham maliciosamente.
A casa tem um ar abafado, misto de suor de gente honesta em busca de um pouco de prazer, misto de fumaça de cigarro em baforadas afoitas, felizes e passageiras.
Jesus adianta-se, ainda tímido, mas corajoso e decidido. A morena lhe sorri matreira com seu olhar cálido e puro. Seu hálito o hipnotiza e ele obedientemente a segue, possuído por um instinto primitivo, rude, viril.
Isso que é felicidade, sim sinhô. Entre um sussuro e outro, entre o vai-e-vem dos corpos, entre o paraíso e o inferno, entre o pecado e a mais alta virtude. Jesus agora dorme o sono dos justos, sonha com miríades de anjos e acorda pra vida. Sorri. E um só nome lhe invade os pensamentos: Madalena! Ah! Doce Madalena! Madalena Mulher!
(continua...)
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Imagem: Cabeça de Moça Encostada - Lasar Segall
O Rei dos Pecadores: um conto brasileiro (Parte V)

V – Dos Amigos
Domingão! O sol paira redondo no céu da favela, iluminando as cores daquelas gentes. Nada como uma boa cerveja no bar do Seu Manézinho pra esquecer da vida e esperar a melhor hora da semana.
Todos já estão a postos no campinho de várzea. Unidos do Cantinho do Céu, hoje esquecem os uniformes rotos e jogam no “time dos sem camisa”. Jesus, junto com Pedro, forma a dupla de atacantes; Felipe, João e Tadeu são os meias; Simão e Mateus, laterais; André, Bartolomeu e Tiago fecham na zaga; no gol defende Tomé; e na reserva aguardam ansiosos Judas, Tiago e Paulo.
Hoje é dia importante: final de campeonato. José e Maria estão ansiosos na torcida. Todos gritam, muitos gesticulam e alguns soltam impropérios. O ar parece tenso, pesado, nuvens negras pairam, o céu desaba.
O campo pobre e agora coberto de poças assiste impune os empurrões, carrinhos, tropeços e alguma peripécia aqui e acolá. Todos estão molhados de suor e de chuva, abençoados, vitoriosos.
No bar do seu Manézinho, as mesas aguardam, acolhedoras, a alegria da gente humilde, o som dos batuques e os remelexos das morenas.E enquanto joga-se conversa fora, joga-se dinheiro fora, joga-se tempo fora, joga-se a tristeza fora, a vida se esvai pela janela quando a lua ascende os céus e a noite entra pela porta.
(continua...)
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Imagens: Futebol - Cândido Portinari
Samba - Cândido Portinari
O Rei dos Pecadores: um conto brasileiro (Parte IV)

IV - Pílula azul ou vermelha
Jesus vira de um lado para o outro na cama. O ar abafado do quarto, o ronco do pai no cômodo ao lado, a televisão do vizinho ainda ligada, a luz que entra pela fresta na janela, não o deixa pegar no sono.
Levanta, toma um gole d´água e volta pra cama. Lembra-se que quando criança sua mãe o ensinou a rezar quando tivesse com medo do escuro. E agora tudo o que Jesus consegue é pensar nas contas que tem pra pagar. Fecha os olhos com força, vira-se de bruços e espera o sono chegar lentamente.
Ouve um zumbido ao longe. Parece sons de vozes misturados à batida bem marcada da música. Olha para os lados assustado e vê um monte de rostos felizes, outros indiferentes, todos desconhecidos. Sente-se confuso, com vertigem. Vai caminhando lentamente, quase levitando até o bar e pede uma cerveja bem gelada.
De trás do balcão, como num passe de mágica num salto mortal, aparece uma linda dançarina, dessas que rebolam o bum-bum arrebitado. Antes que se refaça do susto, o garçom volta e entrega uma bandeja à dançarina. Esta lhe dirige um sorriso malicioso e sussurra ao pé-do-ouvido com a voz rouca: - A pílula azul ou a vermelha? Jesus volta a atenção para a bandeja a sua frente confuso, estagnado.
Um apito insistente e contínuo chega aos seus ouvidos. O rapaz pula da cama assustado, suado, ainda ouvindo o eco rouco e doce: - A pílula azul ou vermelha?
(continua...)
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Imagem: Espantalho - Cândido Portinari
